sábado, 3 de julho de 2010

O GOSTO DE UNS VERSOS

[O retirante...] assiste ao enterro de um trabalhador de eito e ouve o que dizem do morto os amigos que o levaram ao cemitério.

- Essa cova em que estás,
com palmos medida,
é a conta menor
que tiraste em vida.

- É de bom tamanho,
nem largo, nem fundo,
é a parte que te cabe
deste latifúndio.

- Não é cova grande,
é cova medida,
é a terra que querias
ver dividida.

-É uma cova grande
para teu pouco defunto,
mas estarás mais ancho
que estavas no mundo

-É uma cova grande
para teu defunto parco
porém mais que no mundo
te sentirás largo.

-É uma cova grande
para tua carne pouca,
mas à terra dada
não se abre a boca.

(...)

Agora trabalharás
Só para ti, não a meias,
Como antes em terra alheia.

(...)

Trabalhando nessa terra
Tu sozinho tudo empreitas
Serás sementes, adubo, colheita.

(...)

("Morte e vida severina", auto de Natal pernambucano, em "Serial e antes")



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