sábado, 10 de janeiro de 2015

Dr. Adolfo Viana

Heráclio França
Minha infância em Juazeiro deu-se o hábito de venerar as pessoas. Com o tempo, viraria mania, pois até hoje sou vidrado na velharia. E, se elas fossem de prol, isto é, se tivessem história para a gente ouvir, melhor ainda. Uma das grandes figuras que me deixavam fascinado era Dr. Adolfo Viana. Eu já gostava dos modos dele. O andar, a oz cheia de prazer, as calças sem passador etc. Cansei de andar nos seus pisos, dos fundos igreja, onde morava, até a farmácia de Piroca, ou dele, na rua d’Apolo, só para ter o prazer de ver de perto aquela fulgurante simpatia. Para completar, já adolescente, li na revista O Cruzeiro uma crônica do historiador Gustavo Barroso, em que ele dizia que Adolfo Viana tinha sido médico combatente na Guerra de Canudos. Pronto, aquilo me deixou brioso. O velho médico viraria meu ídolo, de quem, daí em diante, procurei escarafunchar mais coisas. Todos eram unânimes em enaltecer a sua inteligência superior, sua invejável eloquência, e, sobretudo, de uma verve fora do comum. Choveram casos, todos eles encimados pelo bom humor do Dr. Adolfo Viana. Um deles guardei para sempre.
Minha geração alcançou a igreja matriz, hoje catedral, caindo aos pedaços, seguer rebocada; a caridade dos fiéis só dava para os andaimes; as portas, uns trapos - o sujeito entrava e saía a seu belprazer, nem precisava empurrá-las.
Um dia, Monsenhor Costa, antigo vigário de Juazeiro, amigão de Dr. Adolfo, cedinho ainda, entrou pelo armengue dos fundos, a da sacristia, e qual não foi o susto que levou ao botar os olhos piedosos numa tremenda porcaria que um malandro fizera atrás do altar, o sujeito descomera mais de um quilo certinho.
Irritadíssimo, claro, o padre sai bradando mil e uma descomposturas ao autor de tamanha heresia, um sacrilégio bom de excomunhão.
Já no meio da rua, ainda demostrando compreensível animosidade, Monsenhor Costa, dá se cara com Dr. Adolfo Vianna, a quem relata a desgraça que acabara de presenciar, prometendo fazer e acontecer, chamar a polícia para invetigar e punir severamente ‘’um capadócio desse’’.
Para acalmar o vigário, Dr. Adolfo leva-o á sua casa, oferece - lhe água, café - e nada. Monsenhor Costa tinha razão ,mas, como bom religioso que era, por sinal, liberal-issimo, Dr. Adolfo sai com esta:
- Ô Costa, cê sabe lá se não foi uma promessa?
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