domingo, 10 de outubro de 2010

PEIXE DO VELHO CHICO - DOURADO


PEDRO DIAMANTINO

"Um excelente ponto de atração para esses peixes, valentes e lutadores, eram as águas do Angaris, defronte ao Matadouro. Para ali afluíam grandes cardumes de Dourados e Matrinchãs, atraidos pelos coágulos de sangue que, em grande quantidade, desciam por uma comprida vala de cimento, em declive, para as águas do rio; assim como pela presença de grandes cardumes de pequenos peixes, e pelos pedaços de gorduras, pelancas e sêbo, atirado ao rio pelas tratadeiras de “fatos” de boi. Enormes Dourados de quase um metro de comprimento, pesando de 6 a 8 quilos, eram vistos á superfície das águas, perseguindo as pequenas Matrinchãs. Peixe predador e guloso, só vendo com que rapidez abocanhava a isca, mal esta caia nágua.
Certa vez (aos doze anos de idade), à hora da matança das rezes, eu já havia capturado dois desses valentes “goelas secas” de uns 40 centímetros, Quando um garoto me ofereceu uma  pequena Matrinchãs, ainda viva, que ele havia capturado naquele instante. Enfiei o anzol no lombo do pequeno peixes e o atirei ao largo. Mal a isca tocou a superfície das águas, eis que um enorme e guloso Dourado engoliu-o. Fisguei, sem perda de tempo; mas o astuto animal era muito grande, e eu não tinha forças para lutar contra ele. Minha frágeis mãos já estavam “assadas” pelo calor da linha deslizante, todas as vezes em que o peixe ganhava o largo, sem que eu pudesse detê-lo. De súbito, o lindo animal surgiu fora dágua, em magnifico salto de mais de um metro, para libertar-se do anzol. Mas, a essa altura, eu já era um bom discípulo de João: afrouxei a linha, para que o velhaco não encontrasse a resistência que desejava. Outro salto, logo em seguida, e a linha bamboleou, como se o maroto houvesse conseguido seu objetivo. Fiquei muito zangado, e tratei de recolher a linha, para outra tentativa, sob o oh! dos garotos que torciam a meu favor. Entretanto, o peixe era, ainda, meu prisioneiro (sem que eu o soubesse) e, apenas rumava, estrategicamente, em direção à praia. Quando reconheceu que se encontrava em região bastante raza, voltou, de repente, e com extrema violência, dando vigoroso puxão e atirando-me nágua, de cabeça - como se eu tivesse sido impulsionado por um safanão, aplicado por mão de gigantes. Mas não perdi nem a cabeça, nem o entusiasmo (apesar da surpresa) de reencetar a luta contra o bandido, até o final. Sai da dágua com incrível rapidez, e segurei a linha; porém um profundo talho na borda damão direita me advertiu da luta desigual que eu tratava contra o valente e obstinado Dourado. Foi quando João Bazé, que, de longe, apreciava o combate, aproximou-se e gritou-me para que eu não cedesse  “tranquei” o resto da linha, e a luta recomeçou. Notando a nova resistência, o peixe veio à superfície, dando um salto espetacular de quase dois metros de altura, fora dágua, sacudindo a grande cabeça, simultaneamente, para a direita  e para a esquerda. João Bazé, porém, estava habituado a lidar com bois, não com peixes em vez de afrouxar a linha, retezou-a, por força do hábito, colaborando, disse modo, com o objetivo do peixe. E sentir uma vontade doida de chorar, quando vi o anzol ser cuspido para o lado. É provável que o queixo se tivesse rompido. Lembro-me, ainda hoje, da expressão fisionômica de João Bazé, sobrolho carregados, olhando para o local onde o peixe conseguia a liberdade. Decorridos uns dois minutos, disse, como em um oportuno desabafo de quem é vitima de uma lôgro:
- “Ah ! filho de uma figa !”..."

LIVRO: Juazeiro da Minha Infância 
MEMÓRIAS - 1959
PEDRO DIAMANTINO
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