quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

LENDAS DAS ÁGUAS BARRENTAS

Mãe Canastra conta histórias
para rio-menino:
- Dizem que lá, muito longe,
onde chamam litoral,
tem água grande.
Rio-menino fica curioso,
desce a serra manso
põe seus pés de água no chão de barro
e entra pelo sertão.

Na infância do rio
chegam os rios reis magos
e ofertam suas águas.

O rio cresce.
Todo rio cresce com sonho de mar,
e sonho de rio
vai, sem querer,
fazendo geografia.

O rio se contorce na terra quente.
As casas conversam á beira d'água.
Toda paisagem veio ver o rio.

Noivado de água e barranco.
Líquidas mãos acariciam
barranco enlouquece
delira,

tem sonho de rio
e ao rio se atira.
Tenta nadar,
em vão

aos poucos se afoga
e vai ser presente do rio
a abóboras e melancias.

Noite.
A noite semeia as estrelas.
Mosquito nas margens,
sapos na beirada,
os músicos de uma inacabável
e milenar sinfonia,
ensaim para a festa do fim do mundo.

Vozes.
Vozes de gente simples
que acredita em milagres
como nas histórias fantásticas
que conta da mãe d'água,
de surubins de cabelo
e do nego d'água.

Nego d'água é feio, terrivelmente feio
e tem bom olfato

Sendo feio ele odeia todas as coisas bonitas.
Deano em ano, ele se olha nas águas do rio
e acha mais feiúra
seu ódio fica sempre maior.
Esconder-se nas águas do rio
durante mais um ano
não traz esquecimento.
Ele nunca esquece que é feio.
Também não pode andar nas margens do rio
nas noites de luar
e tem mais essa queixa.

Nego d'água tem um sonho
o sonho de levar beleza para morar com ele
e ataca as mulheres brancas, de coxas bonitas,
que se vão banhar no rio.
Todas as mulheres são brancas,
ele é sempre mais preto.
A beleza que ele traz pra perto dele
apodrece,
o seu esforço fica inútil,
Irrealizado sonho o enfurece.
Ele não pode ter beleza
e fica mais zangado ainda,
e ataca as canoas com homens
que trazem o cheiro de mulheres
que estiveram com eles.

Noiteceu demanhãzinha
e o céu explodiu
nos longes e nas margens.
Rio cresceu e foi brincar
de afogar ilhas,
depois, curioso,
foi ver perto
o que o caboclo
faz nos altos.

Depois do rio visitar muçambê
na casa dele,
faz mutirão com lavradores
e ajuda a plantar as ilhas.

Águas mortas ficam esquecidas.

Agora vai p'ra Juazeiro
ver a cobra-ponte
que engoliu os barcos
e mistura Bahia e Pernambuco.

Juazeiro: O mar chega de trem,
as casas se agruparam
com medo da enchente
e se reuniram
em intimidade de colóquio,
enquanto a infância
enfeita os fios da rede elétrica
com pedaços
de perdidos sonhos de vôos.

O rio corre mais depressa
apostando carreira consigo mesmo.
Um grito surdo, um ronco
outros gritos, outros roncos
mais fortes
estrondos, explosões, barulhos,
é o rio
que
espuma,
grita,
berra,
chora,ronca,
xinga,
geme,
quando a terra falta a seus pés
e ele cai.

Depois
segue,
resignado e triste
como a gente que povoou sua passagem,
e cumpre seu destino
de entregar-se ao inevitável
Oceano.

LIVRO: O PÁSSARO QUE CRIOU RAIZES
AUTOR: PEDRO RAYMUNDO
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