quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

O PÁSSARO QUE CRIOU RAIZES - LIVRO DE PEDRO RAYMUNDO

A gente veio de onde ? A gente veio do nada. Mas Você é. Existimos - a que será que se destina ? A vida nem é da gente... Pedro vinha sozinho pelo caminho e todas as estrelas se apagaram à sua passagem pra só voltarem a brilhar em sua poesia. Não me sinto muito à vontade usando palavras para me referir a Ele. Ah, esse... tristonho levado, que foi - que era um pobre menino do destino.
... que a vida da gente encarna e reencarna enquanto mamãe vestida de rendas tocava piano no caos. Tem horas em que penso que a gente carecia, derepente, de acordar de alguma espécie de encanto. As pessoas, e as coisas, não são de verdade! A vida mem é da gente... Tudo é testamento.
Isto não é um prefácio. Já houve o interessantíssimo de Mário de Andrade & muitos outros muito menos interessantes. E eu sei, que não, saberia falar de Pedro com palavras. Talvez ao piano. Pelo piano das goteiras chega uma músicas que eu sei, se alguém um dia souber usar, saberá falar de Pedro. A poesia é uma estrela que guia a Deus, reis e pastores. Pedro tinha uma casinha branca nesta estrela com uma varandinha de onde se avistava Juazeiro... um dia fomos juntos a casa do mestre e João chamuo-o Mundinho e naquele instante muitas luzes se acenderam em nós e a noite ficou clara e nos dissolvemos na poesia sentados os três no batente da casa onde o Mestre nasceu e sobre nossas cabeças houve uma chuva de estrelas. A poesia é uma mina... A morte de Pedro fez um buraco imenso e triste. Ele era o Único. A cultura de Juazeiro dependia muito de sua liderança, da generosidade do seu abraço. Pedro era um exemplo de homem que acredita que o mundo foi feito pelos homens e pode ser mudado pelos homens. E não esquecia a poesia. Tinha um coração de melão. Sabia que a poesia era sua via, seu caminho. A figura de Pedro se assemelha a imagem que a gente possa ter dos yoguis, dos ascetas que se dedicam à via, ao caminho. Pedro acreditava que o mundo seria salvo pelos poetas. Tinham a alma do passarinho que em suas veias cantava, Pedro. Poesia.
E quase impossível falar sobre Pedro Raymundo Rodrigo Rêgo sem recorrer abundantemente aos seus próprios versos. A poesia é a melhor biografia que um poeta consegue de si mesmo.
"Por que a árvore me tocou no ombro,
com uma folha,
e me chamou
se eu sou um homem quase perdido?
................................................................
Assim, ele ficou, solitário,
na margem de uma dessas estradas
que a vida andou abrindo por aí
e não asfaltou.
................................................................
Uma estrela desceu, veio devagarinho
e espiou o que eu estava escrevendo
e disse qualquer coisa
(e mesmo qualquer coisa de uma estrela é sempre muito luminoso)
....................................................................................................................
Eu não nascí assim triste,
ensinaram-me depois.
....................................................................................................................
Eu me fui construindo
com o que me ensinavam
com o que fui aprendendo
a vida me foi destruindo.
...................................................................................................................
A única coisa tranquila é o morto,
desvendando o futuro a todas as pessoas."
Meu amigo se foi pela estrada do luar de agosto. "Do lado esquerdo carrego meus mortos / por isto caminho um pouco de banda"
Pedro foi dormir para sempre e virou estrela no céu. Que esta cidade aprenda a amar e compreender os seus artista, enquantos eles estão vivos.
Juazeiro, Novembro 81
Euvaldo Macêdo Filho

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