terça-feira, 14 de setembro de 2010

A CARRANCA E O RIO

A CARRANCA E O RIO

Carranca acorda cedinho;

se espreguiça, curte o sol

e grita pra o rio entender:

- “Chico, amigo, se levante!

Venha ver o sol nascer

e desenhar madrugadas

com tintas vindas do céu.

Os barqueiros vão chegar

e querem água corrente

para a barca velejar

pra bem longe da nascente...”

Rio ondula preguiçoso

e mansinho, mansamente,

no leito põe-se a andar.

- “Carranca mandou, obedeço;

não quero carranquear!”

Carranca olha ao redor:

- “Quem vem lá e por que vem?...

Eta neguinho moleque,

não me dá quietação!”

Nego-d’água, serelepe,

queria mesmo brincar,

mas a carranca, zangada,

fez cara de arrepiar.

- “Carrancuda! Carrancuda!

Nego-d’água vai voltar!”

E a Carranca soluçou: - “Por que me chamam Carranca?

Eu nem sou tão feia assim;

só faço cara de espanto

pra espantar coisa ruim.

Quem me criou é artista,

me pôs até cabeleira...

E ao me fazer repetia:

você sendo a mais bonita

das carrancas beradeiras,

vai proteger os barqueiros.

Nosso rio tem visagem, tem mistério lá no fundo

de amedrontar meio mundo...

Pois, então! Sou importante!

Faço parte da história

do São Francisco cantado

pelo povo sertanejo.

Sou carranca de valor!

Nas águas deste meu rio,

me vejo bela, airosa,

e lhe pergunto: - Chiquinho, alguma vez você viu

Carranquinha mais formosa?”

E o rio lhe diz: - “Dengosa,

tão bela jamais existiu.”

Então a carranca sorriu.

Layze de Luna Britto


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