sábado, 1 de dezembro de 2012

Uma Avó que veio de longe - Lea Khoury

Dá licença. Dá licença família Khoury, por postar o Ensaio Biográfico Lea Khoury.  “Uma Avó que veio de longe”, conta uma  bonita história que faz parte da nossa história, e  da imigração no Brasil. Os professores de Juazeiro poderão utilizá-lo em sala de aula. O livro narra, uma história de sonho, coragem e fé, em busca de um novo mundo, e a união da  família brasileira. Vencer ou Vencer. E você venceu! Fez gols e ganhou o campeonato. D. Lea, a sua história dá um grande filme, um longa metragem. A cidade de Juazeiro  sente-se honrada por  ter sido a escolhida  como o seu porto seguro. O título do livro é maravilhoso.
Parabéns D. Lea, muitos anos de vida e felicidade a toda sua família. 
Uma Avó que veio de longe
Ensaio Biográfico Lea Khoury

PRIMAVERA
Nasci no dia 4 de novembro de 1922, minha família era cristã - Católica ortodoxa - minha cidade na época era colônia francesa e se chamava Alexandretta - uma cidade próspera, com estações climáticas bem definidas. Devido aos rigorosos invernos, no verão estocávamos os nossos alimentos - minha mãe guardava latas de manteiga, azeite de oliva, açúcar e trigo, este último vindo das nossas plantações para fazer o nosso próprio pão, em casa.
Alexandretta fazia divisa com a Turquia e é banhada pelo Mediterrâneo (no Golfo de Iskenderum), portanto uma região (Oriente Médio) de muitos conflitos como ainda é até hoje. No pós guerra, Alexandretta foi cedida aos turcos pelos aliados”, para retribuir o acesso dado à eles, através do estreito de Dardanelos. Com a ocupação dos turcos, Alexandretta passou a se chamar Iskenderun. Por essa razão falo a língua francesa, que na época era nossa primeira língua, depois o inglês e o turco, além da língua pátria, o Árabe.
A nossa escola era separada por sexo e existiam escolas de Freiras e Padres. Uma igreja ao centro separava meninos e meninas, era a escola British High School - época em que conheci Shefik quando ele trabalhava para uma empresa de origem inglesa (Braithwaite & Co.Ltda) e se mudou para lá.
O meu pai chamava-se Nicola Spiro Khoury, era de descendência grega e faleceu quando eu tinha cinco anos. Quando casou com minha mãe era viúvo e com nove filhos do primeiro casamento, já tinha uma certa idade e a diferença entre eles era muito grande. Agricultor, cultivava trigo, lentilha, nozes, grãos em geral e vendia para os comerciantes da cidade.
Do segundo casamento do meu pai, nasceram quatro: Yorgy o mais velho, Jorgete a Segunda, que faleceu (crupe) ainda menina aos sete anos de idade, eu e Toufik. Após o falecimento do meu pai, minha mãe assumiu os negócios e assim vivíamos muito bem.
 Minha mãe chamava-se Maricota (Marie), era descendente de gregos e faleceu ainda muito jovem, aos quarenta e sete anos de idade, no dia 14 de dezembro de 1941. Ela sofria do coração. Foi uma perda inesperada e muito sentida para nós, com isso ficamos (Toufik e eu ), tomando conta da nossa avó Malakie, que morava conosco e perdeu a memória no dia do falecimento da nossa mãe.
“Ela foi para a igreja. Ela, não quer casar com você, ela quer ir, encontrar com os irmãos, no Brasil”

Começava ali, o projeto dos meus tios, de providenciarem o meu casamento, já que Yorgy, o nosso irmão mais velho, já estava no Brasil, (desde 1938), na cidade de Mundo Novo, aqui na Bahia, onde trabalhava com um tio nosso Jorge Karaoglan, irmão da minha mãe. Foi então que falei para eles de Shefik, já que nos conhecíamos e a minha mãe também.
Ele começou a me assediar, no entanto eu não cedi fácil, deixaram sempre recado em casa. Dizer que eu não estava, que tinha saído, que eu  para igreja. Foi aí que um dia, ele chegou em casa e minha mãe lhe disse: “Ela foi para a igreja. Ela, não quer casar com você, ela quer ir, encontrar com os irmãos, no Brasil” e ele teria dito a minha mãe, “se for por isso não tem problema, eu também vou para o Brasil” e dessa vez ele foi para a igreja e lá me encontrando: 
“Quero casar com você e vou com você para o Brasil”. 
Esse foi o nosso primeiro encontro, na igreja.
Toufik me aconselhou a aceitar o pedido de casamento de Shefik e ficamos logo, já que éramos sozinhos e assim teríamos que casar logo, já que éramos sozinhos e assim foi feito. Mas havia um porém, ele teria que vir comigo, para o Brasil, já que era vontade de nossa mãe que se um dia ela faltasse, nós os irmãos, ficássemos juntos. Shefik aceitou.
Eu mesma confeccionei o meu vestido de noiva e meu enxoval e no dia 25/12/1942, numa cerimônia simples, já que eu ainda estava de luto da minha mãe (naquela época usava-se preto fechado) eu e Shefik nos casamos. Vivemos ainda em Alexandretta por mais seis anos tomando conta da minha avó Malakie. Com o seu falecimento, eu e Shefik resolvemos vir para o Brasil ao encontro de Yorgy e Toufik (que veio em 1946), conforme vontade da nossa mãe.
Quando iniciamos algumas viagens de despedidas, houve um acidente de carro e Shefik sofreu algumas fraturas. Tivemos que atrasar por mais de um ano a nossa viagem e Shefik, ganhou uma companhia inseparável, além de mim, a bengala.
OUTONO
Na época, sair do País era como abandonar a Pátria, mas com a ajuda de amigos conseguimos embarcar. Saímos da Turquia (Alexandretta / Iskenderun) para a Síria (Alepo), da Síria para o Líbano (Beirute), e de lá para a Itália (Roma), Portugal (Lisboa), Brasil (Recife). Quando chegamos em Recife, saímos de Carro (com pernoite em Caruaru), até Petrolina, atravessamos o Rio São Francisco em uma embarcação até chegamos a Juazeiro.
Já era noite e lembro que perguntava - Para onde vamos? Onde fica Juazeiro? Naquela época a energia elétrica era muito precária. Fui tomar banho e não lavei o cabelo e disse a meus irmãos, vou deixar para lavar o cabelo amanhã pois deve ter havido algum entupimento na tubulação e a água está turva. E eles me disseram, minha irmã a água é assim mesmo, amanhã pode lavar o seu cabelo, Lembro que meu jantar foi uma lata de sardinha e eu enjoava muito, já estava grâvida de Jorge.
Carregava muita bagagem, muitas malas, que mais adiante falaremos delas, uma bagagem rica em objetos de valor sentimental, que foram dos meus pais. Trazíamos até nozes, das nossas plantações.
Cheguei no Brasil no dia 03 de outubro “Dia das Eleições” e cheguei em Juazeiro no dia 04 de outubro “Dia de São Francisco. E como esses dois eventos marcaram, a minha vida: As Eleições - a Política (meu filho), o São Francisco - o Rio (Juazeiro). 


Tinha apenas 26 anos de idade, desembarquei com uma mala, uma não, muita... malas de saudades, coragem, esperança, fé e vários bens. Na minha barriga o maior deles, meu filho Jorge, o que me dava mais coragem. Ao meu lado, o meu querido Shefik que com a sabedoria dos bons, me conduzia e apontava célebres caminho, nele eu logo vislumbrava músicas de acalanto saídas de uma voz calma, na tentativa de amenizar a minha tristeza, minha saudades, meus medos. Ele que aqui veio para atender um desejo de minha mãe, que gostaria de ver os filhos unidos, e cá estávamos nós dois ao encontro de uma nova vida em Juazeiro. Foram muitas dificuldades: o idioma, os costumes, o ambiente desconhecido e tantas vezes hostil da vida. De vez em quando me surpreendia ouvindo a voz do silêncio, numa capacidade desconhecida - Quanta sabedoria de Shefik, em cada gesto me nutrindo, amparando e cuidando da minha alma. A sua voz doce e sonora dando sentido ao caos que me rodeava, fazendo enxergar os peguenos milagres diários que a vida me proporcionava. E foi nutrindo cada segundo, cada minuto, cada hora e cada dia de nossas vidas, que consegui ultrapassar as barreiras e dificuldades trazidas naquelas malas. As malas... as tais malas que me referi no início, e que aos poucos fui abrindo uma a uma:
Primeiro a mala da saudade, depois a mala da esperança e a da fé, com a mesma coragem que embarquei lá no início: Alexandria - Juazeiro.
Hoje as malas já lacradas, aqui estou eu com os meus 90 anos de vida, realizada e agradecida a Juazeiro, essa cidade e sua gente que tão bem nos acolheu. Os pertences daquelas malas já guardados com carinhos no meu coração. Naquelas época eu nada sabia, aqui vim para formas uma pequena família, eu e Shefik e essa cidade me ensinou o que é solidariedade, caridade e me deu uma grande família, falo não só dos meus filhos, falo dos filhos adotivos que aqui adquiri, em especial as minhas queridas filhas Teca e Zuza, falo de Cirila, minha companheira e colaboradora, a nossa querida Lili, que tão cedo partiu, falo de Raimunda, a nossa querida Pipiu, que cuidei desde cedo e está em nossa companhia até os dias de hoje, falo de Iracy, o meu anjo da guarda diário, e as cuidadoras que com tanto carinho conseguem minorar as dificuldades que a idade me trouxe, falo das crianças da APAE, que dentro dos seus sofrimentos me ensinou a ser uma pessoa melhor, falo daqueles menos favorecidos que batem à minha porta em busca de uma palavra, um afeto, um conforto, um carinho e que de alguma forma eu busco minorar as suas dificuldades.
Hoje me considero uma Mulher Feliz, pois DEUS me deu seis filhos - Jorge e Suely, John e Flor, Marie e José Alberto; dez netos (por enquanto) - Lara e Gustavo, Bruno, Raquel e Rodrigo, Sarah, Thais, Aline, Jorge e John; o meu primeiro bisneto - Guilherme (Lara e Gustavo); além de muitos, muitos, muitos amigos.
E foi embora o último elo que eu tinha com a minha terra, o meu Shefik - que se foi há 20 anos.
1º/12/1911 + 24/07/1992)
Eu, LEA KHOURY totalmente BRASILEIRA
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