sábado, 17 de outubro de 2009

HISTÓRIA QUE VIVE NA CABEÇA DO POVO

P. O que é a "história que vive na cabeça do povo ?"

R. É essa história que não foi registrada em livro nenhum mas que aconteceu. Toda história que aconteceu é importantissima. Não existe uma história mais importante que outra. Por exemplo: as festas da padroeira. Nós já tivemos em Juazeiro festas importantes na época da disputa entre "Apolo" e "28 de Setembro". Naquele tempo, quando os recursos eram mínimos, quando não existia a cartolina, porque a cartolina era apenas o papelão, quando não existia o tule, quando se queria fazer nuvens, fazia-se mesmo eram com algodão, porque só havia o algodão, quando não existia os artificios de hoje, as pessoas conseguiam fazer coisas importantes. O papel que a gente tinha em mãos era o papel crepon, ainda hoje, sou a grande admiradora deste papel. E as pessoas fizeram arte verdadeira, arte pura, arte impressionante. Então fico muito gratificada quando converso com as pessoas elas colocam para mim essa história. Outro exemplo: Juazeiro foi a terra das assombrações. Era assim: "na rua de baixo está aparecendo um homem de saia comprida, de chucalho com as cabeças e não sei o quê"; "apareceu uma mulher Atrás da banca", apareceu um bicho na beira do rio".Sempre apareciam coisas aqui em Juazeiro. Então minha gente, isso é história. Isso para mim é uma coisa tão importante como a gente saber que os Garcias D'Avila passaram em Juazeiro, que Juazeiro surgiu de uma aldeia de índios Cariris. Porque isso é a história da terra. Eu já tive oportunidade de conversar com cento e tantas pessoas e procurei registrar tudo que essas pessoas tinham a me contar, todos os tipos de história, porque elas são importantes. Esta pesquisa está em cadernos arquivados em minha casa.
  • P. O que você vai fazer com tudo isso ?
R. E eu sei ? eu só sei que no dia em que eu morrer podem até tirar uma grade dessas da janela, para ser mais fácil jogar tudo aí de janela à fora, queimar. Porque o que tudo isso terá de sentido para mim depois que eu morrer? Não vai ter nenhum.

  • P. Para você não, mas tem para a comunidade. E então ?
R. Para Juazeiro seria de muita importância. Mas, eu pergunto assim: a quem entregar? Infelizmente eu não confio em ninguém, pelo seguinte: Isso para mim tem um sentido infinito, como tem servido principalmente à comunidade estudantil de Juazeiro que tem me procurado para dar informações sobre o municipio! Nesses anos todos que tenho assistido? Destruição. Juazeiro é uma terra que não preserva as coisas. Destroi mesmo, porque é uma coisa assim que está na alma do povo, destruir.

  • P. Essa caracteristica de destruição que você falou, em todas as áreas política, cultural, econômica, como é isso?
R. Não há uma explicação. O que eu é que antigamente, na parte de cultura, na parte de arte, em todos os setores havia pessoas que assumiram a frente de um trabalho e todo mundo aceitava-as. Aceitava sua metodologia de trabalho e todo mundo se interessava. As pessoas tinham respeito pelas outras. José Petitinga foi o homem que mais elevou o Clube Comercial. Era forasteiro e como ele, tantas pessoas que trabalham e trabalharam nesta cidade e que sempre deixaram-se apaixonar por ela. José Petitinga era um mestre, e assim era chamado. Ele dava organização, o planejamento do trabalho, e dai surgiram os escritores, os poetas, os jornalistas, os dramaturgos. Mas por quê isso? Porque todo mundo, os jovens, principalmente, tinha respeito.

As pessoas daquela época eram tão seguras que não tinham medo de respeitar as outras. Os homens daquela época, que ainda hoje vivem, eles se referem a José Petitinga como uma pessoa respeitável como intelectual. No teatro, por exemplo: Trajano Bandeira, Dermeval Lima, Constantino Nascimento, não tinham medo uns dos outros. Hoje em dia, se você vai fazer um trabalho, a cidade todinha vai de encontro a você: você não tem qualidade; seu trabalho não presta, tudo isso. Então, o que eu noto, é que as pessoas de hoje são pessoas fracas, não tem coragem de bater palmas. É muito importante você valorizar o trabalho do outro. É isso que está atrapalhando muito. A diferença entre o passado e o presente de Juazeiro é uma diferença infinita só por isso: as pessoas de antigamente seguras de fé.
LIVRO - VOCÊ ACREDITA EM ASSOMBRAÇÃO - Maria Franca Pires
ENTREVISTA - O BERRO D'ÁGUA
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